A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



MIA COUTO



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Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi director da Agência de Informação de Moçambique, da revista Tempo e do jornal Notícias de Maputo. É biólogo. Na Editorial Caminho publica: em 1987, um livro de contos - Vozes Anoitecidas - (editado inicialmente pela Associação de Escritores Moçambicanos); em 1990, Cada Homem É Uma Raça (estórias); em 1991, Cronicando (também editado inicialmente em Moçambique); o seu primeiro romance acontece em 1992 - Terra Sonâmbula; em 1994 Estórias Abensonhadas-, em 1996 o seu segundo romance, A Varanda do Frangipani; em 1997 Contos do Nascer da Terra e em 1999 Vinte e Zinco (romance); Raiz de Orvalho e Outros Poemas è o resultado de uma leitura actual, com acrescentos de novos poemas e depuração e revisão de outros, de um livro editado em Moçambique - aliás, o primeiro livro que Mia Couto publicou; surge agora, em 2000, o seu quarto romance, O Último Voo do Flamingo.
Várias obras de Mia Couto estão traduzidas ou em curso de tradução em diversas línguas: espanhol, francês, italiano, alemão, sueco, norueguês e holandês.
Foi galardoado, pelo conjunto da obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999.


Capítulo décimo sétimo

O PASSARINHO NA BOCA DO CROCODILO
                             Não me basta ter um sonho.
                                         Eu quero ser um sonho.

                                      (Palavras de Ana Deusqueira)


  Entrei no quarto de Massimo e uma multidão de papeladas estava espalhada em todos os móveis.
  - Não me diga que desbotaram as letras outra vez?!
  - Não.

  Me assaltou então um frio. O italiano empacotava suas coisas. Se retirava. Uma inesperada tristeza me sombreou. Eu já me afectuava ao estrangeiro?
  - Vai partir?
  O homem confirmou, apenas com um aceno de cabeça. Eu o espicacei: ia desistir, baixar as mãos da obra? Abandonava a sua ambição de promoção assim, no meio do caminho?
  - Que caminho?
  Eu não sabia responder. Ele tinha razão. Havia, quando muito, um labirinto. Mais tempo ali, mais ele ficaria perdido. Assim, arrumando suas roupas na mala, o estrangeiro parecia dobrar a sua própria alma. Num certo momento, parou, com um sorriso estranho. Por que se ria?
  - Você não diz que eu devia era contar estórias? Pois me lembro agora de uma.
  - Finalmente uma estória! Conte, Massimo.
  - Não é uma estória, é uma lembrança. Recordei-me do que faziam com meu avô, quando ele envelheceu lá na Itália.
  - O que faziam?

  À noite levavam o velho à prostituta. Chamavam a meretriz à parte e lhe pediam para ela lhe dar ternura. Simples carinho sem anexos nem sexo. Afinal, o prazo do velho já passara. A meretriz que simplesmente cantasse para o adormecer. Assim combinavam com ela, sem que o velho se apercebesse. E pagavam ainda mais para que ela, no dia seguinte, corroborasse com a mentira do sucesso dele. Tanto vigor nem os mais jovens! Familiares e prostituta gabavam a frescura do velho, participando na farsa. O que sucedeu, com os anos, é que a moça se converteu e se dedicou, em exclusividade, ao idoso avô. Nunca mais nenhum homem lhe foi conhecido. Até que, um dia, a prostituta apareceu grávida. Ninguém levantava dúvida: a criança seria do avô.
  - E você, Massimo, se lembra disto porquê?
  - Essa criança sou eu.

  Preferi nada dizer. Nem me parecia verdade, aquela confissão dele. Porquê me entregava a mim aquele segredo dele? Mas o italiano prosseguia: que havia um destino, sim. Esse destino o tinha conduzido até ali, o tinha atirado para aqueles confins e lhe entregara, inclusive, uma prostituta que guardava segredos.
  - A mão de um bom santo me protegeu.
   Só agora avaliava essa protecção. Noites seguidas, ele não dormira com medo de estourar como os outros. Não sabia eu porquê ele tinha sido poupado? Se ele ficara inexplodível era porque beneficiara de uma bondosa protecção. Sobrevivera graças a um amor.
  - E acredita nisso, Massimo? Acredita nessas nossas coisas?
  O importante não era a verdade do assunto. Contava era ter havido alguém que intercedera por ele. Essa era a única verdade que lhe interessava.
  - E quem você acha que foi?
  Acreditava ter sido Temporina. Seu coração lhe dizia isso. Eu sabia que a moça-velha não podia encomendar um feitiço. Nenhuma mulher pode chamar serviço de curandeiro sem chegar a ser mãe.
  - Não foi Temporina. Foi outra.
  Ele sorriu, certo que tinha sido Temporina. Continuou arrumando seus haveres. No momento, uma cassete lhe parecia sobrar. Lembrou-se: era um depoimento de Ana. Tinha ali uma gravação que ele sozinho registara. Numa tarde em que eu fora à administração o italiano visitara a prostituta.
  - Afinal, você anda por aí sem mim? Sem o seu tradutor oficial?
  O europeu se envergonhou. Começou a justificar-se, mas eu o dispensei da culpa. Massimo ainda hesitou. Porém, acabou ligando o gravador e os dois nos calámos a escutar a voz de Ana Deusqueira:

  O senhor se cuide, Massimo Risi: a boca é grande e os olhos são pequenos. Ou como se diz aqui: o burro come espinhos com a sua língua suave. É que isto aqui é mais perigoso que o senhor pensa. Perigoso porquê? O senhor vai descobrir como o pato. Sim, como pato que descobre a dureza das coisas só depois de partir o bico.
  É que no meio de tudo há sangue, monos a quem não cobriram o rosto. Esses mortos dormiram no relento, impurificaram a noite. Para o senhor, com certeza, isso não traz gravidade. Aqui não é a morte, mas os mortos que importam. Entende? Ainda vai morrer mais gente, lhe asseguro. Não faça essa cara. Eu espero que a desgraça lhe passe nas suas costas, a si que me parece um homem bom.

  Fui mandada para aqui pela Operação Produção. Quem se lembra disso? Atafulharam camiões com putas, ladrões, gente honesta à mistura e mandaram para o mais longe possível. Tudo de uma noite para o dia, sem aviso, sem despedida. Quando se quer limpar uma nação só se produzem sujidades.
  Em Tizangara até me receberam bem. Esta gente se afastava, como não querendo ser contaminada. Contudo, não me maltrataram. No início eu me sentia como numa prisão, sem grades, mas cercada por todo o lado. Eu estava como o prisioneiro que encontra no carcereiro o único ser com quem trocar as humanidades. E pergunto: por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Seria melhor sermos bichos, tudo instinto. Podermos violar, morder, matar. Sem culpa, sem juízo, sem perdão. A desgraça é esta: só uns poucos aprenderam a lição da humanidade.

  Certa vez, fugi. Meti-me pelos matos até lá onde a floresta se despenteia mesmo sem nenhum vento. Fiquei tombada como mona, junto a uma ponte no leito seco do rio. Senti que chegava alguém, me levantava em seus braços. Eu estava leve como entranha de morcego. Fui levada para uma casa linda, nem meus olhos haviam sido ensinados a contemplar tais belezas. Nunca identifiquei quem me tratava: eu estava exausta, tudo me chegava entre névoas e tonturas. Depois me deixaram na igreja quando eu já podia comigo. Hoje, creio que foi tudo sonho. Essa casa nunca houve. E, se houve uma tal casa, ela ruiu, desabada em poeira sem lembrança. É que todas as mulheres do mundo dormem ao relento. Como se todas fossem viúvas e se sujeitassem aos rituais da purificação. Como se todas as casas tivessem adoecido. E o luto se estendesse por todo o mundo. Às vezes, em breves momentos de alegria, nós fazemos de conta que repousamos sobre esse tecto perdido. Às vezes me parece reencontrar essa voz que me salvou, essa casa que me abrigou.
  Estes poderosos de Tizangara têm medo de suas próprias pequenidades. Estão cercados, em seu desejo de serem ricos. Porque o povo não lhes perdoa o facto de eles não repartirem riquezas. A moral aqui é assim: enriquece, sim, mas nunca sozinho. São perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques.

  Assim, aprendi minhas sabedorias: passo como penumbra no poente. Sou pessoa muito cabida. Como aqueles passaritos que comem na boca do crocodilo. Lhe aparo sujidades nos dentes e ele me aceita. Me protejo fazendo morada no centro do perigo. Minha vida é um acerto de favores, um negócio entre dentes e maxilas dos matadores.
  Aprenda isto, amigo. Sabe por que gostei de si? Foi quando lhe vi atravessar a estrada, o modo como andava. Um homem se pode medir pelo jeito como anda. Você caminhava, timiudinho, faz conta um menino que sempre se dirige para a lição. Foi isso que apreciei. O senhor é um homem bom, eu vi des-de-desde. Lembra que falei consigo no primeiro dia da sua chegada? Lá de onde o senhor vem também há os bons. E isso me basta para eu ter esperança. Nem que seja só um. Unzinho que seja, me basta.
  Ao vê-lo, logo no primeiro dia eu disse para mim: este vai-se
salvar. Porque aqui você precisa de calar a sua sabedoria para sobreviver. Conhece a diferença entre o sábio branco e o sábio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem.
  Faz bem, Massimo: não aspire ser centro de nada. A importância aqui é muito mortal. Veja, por exemplo, essas avezitas que pousam no dorso dos hipopótamos. Sua grandeza é o seu tamanho mínimo. É essa a nossa arte, nossa maneira de nos fazermos maiores: catando nas costas dos poderosos.
  Desculpa, tenho que interromper essa minha declaração, mas você me está atrapalhar. Está-me olhar assim, porquê? Me está desejar, não é Massimo? Mas não pode ser. Com você não pode ser. Se me tocar você vai morrer.

  - Eu sei me prevenir, trouxe o preservativo.
  - Não é isso. Esta é outra doença.
  - Então morro como?
  - As mulheres aqui foram tratadas...
  - Tratadas como?
  - Deixe isso, Massimo. Deixe, depois alguém lhe há-de explicar tudo.
  Quem sabe, mais tarde, nos encontraremos, longe de tudo isto? Agora, vou só lhe contar como sucedeu naquela noite com o zambiano. Nunca contei isto a ninguém, você é o primeiro a saber o que aconteceu. Pois, esse soldado me visitou sem nenhumas maneiras. O homem nem perdeu tempo com beijo. Você sabe como é a minha gente. Me subiu assim, sem preparo, mais salivoso que cachorro. E ali se serviu, todo por cima de mim, completamente nu, excepto a boina na cabeça. Transpirado, aguando--se pela pele, ia gemendo, arfalhudo. Suspiros e gemidos iam crescendo, cada mais frequentes, eu já aliviada por ver a coisa a terminar. Foi nesse instante: em vez de se vir, o tipo rebentou-se, todo estampifado. Me assustei, quase de morrer. Fechei os olhos. Eu já tinha ouvido falar disso, dos estrangeiros explodirem quando montam nas meninas. Porém, nunca tinha acontecido comigo, nunca. Eu não queria nem abrir os olhos, ver a sangraria toda espalhada, tripas dependuradas nos candeeiros. Mas, afinal, não tive que limpar nada. O homem explodira como um balão. Aquele vivente se tinha espatifurado sem vestígio.
  E agora se vá. Vire costas e não volte para trás. Nem me espreite. Pois você me veria lhe deitando olho desejoso. Vá, que um outro tempo nos há-de visitar.


(continua)

Edição de 2000

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